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A corrupção começa na escola?

30/05/2013 - 11:50

FÁBIO SOARES DA COSTA*

fabio soaresA corrupção é vista em todos os lados da vida do cidadão brasileiro e a prática de princípios éticos e morais é necessária para o seu combate. Na escola, isto é visível a partir de fatos como:

A família Soares é uma família tipicamente brasileira que deseja ganhar o seu sustento, educar as filhas e vê-las crescer numa sociedade justa e aberta. Mas todos os dias esta família vê casos de corrupção à sua volta. Os Soares tentam ser cidadãos honestos, vivendo do seu trabalho e mérito sem se envolverem em subornos. Não é fácil, mas todos eles dão o seu melhor para conseguirem seguir em frente de forma limpa. Para isso, vão enfrentar muitos obstáculos: muitas pessoas vão tentar convencê-los de que tudo se torna mais fácil se entrarem em esquemas de corrupção. Mas eles mantêm-se fiéis aos seus ideais mesmo quando os que tentam suborná-los são pessoas ricas e influentes.

Letícia, a mais nova das duas filhas da família Soares, descobre que a corrupção é uma prática corrente na sua escola. Letícia é uma aluna dedicada, estudiosa, participativa, abnegada e cheia de sonhos para o futuro. Está chateada, pois acha que deveria receber notas melhores daquelas que recebeu. Sua revolta dá-se não apenas pelo fato das notas terem sido abaixo do esperado por ela, mas de que recebeu notas similares daquelas “dadas” aos alunos que não estudaram o bastante para recebê-las, não fizeram suas tarefas de casa, seus exercícios de fixação, suas atividades extraclasse, mas mesmo assim, receberam inúmeras chances para tê-las como aprovativas.

O imperativo da aprovação escolar a qualquer custo apresentado por pseudo-estatísticas positivas que buscam uma justificativa social para apresentar que “tudo está bem” é um dos maiores exemplos de que a corrupção começa na escola. Veja o diálogo a seguir:

Letícia: Mãe! Mãe! Está aí?

Francisca: Estou na cozinha, Letícia! Aconteceu alguma coisa?

Letícia: Estou tão aborrecida! E zangada! Estou… estou furiosa!

Francisca: Por que, Letícia? O que é que aconteceu, filha? Tirou notas baixas na escola?

Letícia: Oh, mãe, é muito pior que isso! Bem, é verdade que as provas não foram tão boas como eu esperava – mas acho que merecia melhores notas do que as que a professora me deu. Mas pior que isso foi o fato de os piores alunos da minha turma terem tido ótimas notas! E passaram o ano todo sem fazer os trabalhos de casa!

Francisca: Então porque é que recebem notas tão boas?

Letícia: Um favorzinho.

Francisca: Favorzinho? O que é que está querendo dizer com isso?

Letícia: Ficamos sabendo que os pais deles não querem que os filhos tenham notas ruins mesmo que sejam preguiçosos e não façam nada. E, por isso, os pais deles andam pedindo que a professora faça um “favorzinho” para lhes dar notas melhores. É que esses pais são ricos, poderosos e influentes socialmente. Além disso, a diretora da escola está fazendo tudo para que os professores passem todos os alunos, pois desta forma, receberá mais dinheiro no ano que vem! É isto que ouvimos pelos corredores.

Francisca: Mas isso é corrupção!

Letícia: Eu sei, mãe. E parece que isso já acontece há anos lá na escola. Estava a falar com a Telma sobre isso e ela nem queria acreditar que eu não soubesse.Mas eu nunca pensei que os professores faziam isso! Mãe, a senhora é professora – e nunca faria isso não é? A senhora sabia que acontecem estas coisas?

Francisca: Bem, Letícia, se acontece, eu não sei. Nunca falei disso com os meus colegas. Confesso que já me passou pela cabeça, mas nunca quis saber ao certo,portanto nunca perguntei.

Letícia: Então é possível que também aconteça isso na tua escola?

Francisca: Provavelmente.

Letícia: Mas isso é horrível!Se há quem peça para ter notas melhores, mesmo que não as mereça, então os resultados das provas não dizem nada sobre o nosso esforço e o nosso trabalho! Só dizem se os pais podem “pagar” por eles ou não. Mas isso é um absurdo! Eu pensava que a corrupção só acontecia com políticos, quando eles desviam dinheiro ou quando fazem cortes na ajuda ao desenvolvimento.Agora nas escolas nunca pensei…

Francisca: Infelizmente, Letícia, para algumas pessoas, a corrupção faz parte do dia a dia. Mas isso não significa que tenhamos de ser como elas. O meu pai costumava dizer que a corrupção é o elefante nasala. Ninguém fala sobre isso, mas ela está lá. Por todo o lado!

Letícia: Mas deve haver pelo menos algumas pessoas que cumpram as regras, mãe!

Francisca: Claro que há. E nós temos de acreditar que há mais pessoas que cumprem as regras do que as que cedem a subornos e à corrupção.

Letícia: Mas mãe, se as pessoas são assim – sobretudo os professores que deviam dar o exemplo – então como é que eu vou conseguir ter notas para entrar na faculdade?

Francisca: Nós não precisamos comprar notas melhores,Letícia! Você é uma menina inteligente, esforçada e, por isso, vai conseguir entrar na faculdade, vai ver! Se fizer o que achas certo, acabará por alcançar o que queres.

Letícia: Humm… Não estou vendo como… Estou tão zangada com tudo isto!

Tiago Dantas, em um de seus artigos: Corrupção, publicado no sitio brasilescola.com, diz que a palavra corrupção vem do latim corruptus, que significa “quebrado em pedaços”; em outra interpretação, “apodrecido, podre”. Podemos dizer, então, que a palavra corrupção significa tornar-se apodrecido, tornar-se podre, apodrecer. Fora do contexto ao pé da letra – que não deixa de ser uma magnífica explicação – corrupção é o uso ilegal do poder, objetivando o benefício a si próprio ou a pessoas ligadas por uma rede de interesses.

Neste contexto, para um melhor entendimento etimológico precisamos entender que corrupção dá-se de forma ampla, apresentando-se nos diversos poderes, quer seja político, econômico, intelectual, religioso, militar, etc.. Historicamente enraizada, a corrupção é cultural e desenvolve-se, também, na educação formal, dentro da escola, que por vezes apresenta-se com fortes características coloniais, onde o uso do poder serve para a aprovação serial, das mais diversas formas, inclusive, “vendida”.

Por que será que somos tão resistentes na aceitação ao fato de que o “Jeitinho brasileiro” é ensinado na escola? Vejam exemplos: Alunos – fazer matrícula atrasado para não levar faltas nas primeiras aulas; estudar toda a matéria do bimestre no último dia antes da prova; colar dos colegas, ou no próprio material; pagar para outros desenvolverem seus trabalhos; matar aula e justificar com atestados médicos comprados e falsificados; chegar atrasado e dizer que a culpa foi do ônibus, sujar o ambiente, depredar o patrimônio.Professores – chegar sempre atrasado; sair sempre antes do fim da aula; eleger dias no mês para não trabalhar e usar justificativas absurdas; usar procedimentos avaliativos surreais (trabalhos copiados, em duplas, trios e até octetos, provas pesquisadas, etc.); ceder às pressões dos alunos para permutar provas por trabalhos (pouco poder avaliativo; alta possibilidade de boas notas e menor trabalho para corrigir); aprovar alunos porque estes são comportados, bonitinhos ou são seus amigos, por que os pais pedem ou por pena; aceitar a cola nas aulas; furar a fila do lanche, sorrir e reforçar atitudes “espertas” da comunidade escolar e ser conivente (quando silencia) com o que acontece de errado ao seu redor. Administração–Gerir os recursos financeiros como se fossem seus; não prestar contas; desviar verbas ou a sua finalidade; usar seu cargo com autoritarismo e não com autoridade; perseguir professores; proteger professores; não descontar faltas de funcionários por complacência; ausência nos horários de trabalho; prevaricação; alterar notas ao final do ano letivo; etc.O Administrador corrupto odeia nomes como reuniões, conselho escolar, associação de pais, grêmio estudantil, prestação de contas, licitações, almoxarifado, exposição das contas em mural, reunir conselho fiscal, etc.. Ele prefere trabalhar somente junto com “os seus”, “os mais próximos”, “os leais”, aqueles que entendem e não perturbam a direção, são funcionários amigos e passivos, acomodados, ociosos e não “aqueles agitadores”, “revoltados”, “frustrados”, “doidos”.

No cotidiano escolar podemos observar que existe a prática da corrupção branda, que é aquela em que alguns funcionários são beneficiados e deixam a “coisa correr frouxo” é quando ocorrem os favorecimentos de amigos para amigos. Elogiam-se entre si, criam aquele clima de “todos trabalham e nada funciona, todos mandam e ninguém obedece”. Livro de ponto só para adversário, rigor somente para os contras, aqueles “os bestas”. Aqueles setores em que se trabalha com mais comodidade como biblioteca, sala de vídeo, laboratório de informática, setor pessoal, almoxarifado (quando existe), salas com ar condicionado e a parte financeira são exclusividade de alguns afortunados e protegidos.

Observamos que obter vantagem, mesmo nas pequenas coisas, é a palavra de ordem para boa parte dos brasileiros, por isso não é difícil encontrar em si mesmo uma pessoa que reclama e amaldiçoa os políticos corruptos, mas já foi corrupto em inúmeras outras situações. Hipocrisia pura.

O fato é que nós e a escola devemos mudar de rumo, devemos plantar novas raízes para construir uma árvore frondosa e cheia de bons frutos. Voltar o olhar para a prática da honestidade, da ética e da reprovação das práticas corruptas através de suas ações. Assim, teremos uma sociedade menos corrupta, com escolas que contribuam menos para a corrupção.

O ponto aqui exclamado não pretende alicerçar um fato isolado ou uma situação instalada, ao contrário, a apresentação de possibilidades e realidades procura transparecer horizontes translúcidos, procura impregnar de pontos de interrogação aquele que se pôs a conhecer estes argumentos, na busca da prática reflexiva sobre o que está a nossa volta, na tentativa de desmistificar a causalidade dos atos de corrupção num plano macro, e na ligação desta situação, por ventura vista apenas como política, para colocá-la lado a lado com o sistema educacional nacional e com os nossos próprios comportamentos.

Neste contexto, a robusta contribuição da instituição escolar para a corrupção aqui apresentada não anula, desconsidera ou engessa a grande massa de cidadãos formados nestes estabelecimentos de ensino. Grandes professores, médicos, advogados, administradores e mais uma grande leva de profissionais são e serão os bons frutos da escola, e estes bons frutos constroem nossa sociedade de forma mais acelerada do que os maus. É bem verdade que uma parcela pujante de professores, diretores e servidores, sobremaneira fazem da escola um ambiente de aprendizagem, prática da cidadania e lugar bom para o seu desenvolvimento moral e ético, todavia, tampar os olhos para os “deslizes” nossos e de nossos pares, partícipes deste sistema como formadores destes cidadãos ambíguos, cheios de sentimentos de dúvidas, medos e tentações, prontos para assimilar e multiplicar aquilo que nós o oferecemos, é implantar uma catarata sintética a mais nos olhos de quem um dia irá sofrer com cataratas naturais e culturais construídas pela própria vida.

*Fábio Soares da Costa é mestrando em Comunicação pelo PPGCOM da UFPI. Educador Físico graduado pela UFPI, especialista em Supervisão Escolar pela UFRJ e Professor das redes públicas de ensino dos Estados do Piauí e Maranhão


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